05O que eu defendo
Emergência climática e transição energética justa
Floresta em pé, indústria verde, empregos de qualidade e proteção para quem já paga a conta da crise climática.
A conta da crise climática já chegou. Ela está presente por trás da enchente que varreu o Rio Grande do Sul, nas secas históricas de rios amazônicos – pesadelo de comunidades indígenas e ribeirinhas, que ficam ilhadas em terra firme – e no deslizamento de morros onde nunca houve política de habitação. E, como sempre, ela chegou primeiro na casa dos mais pobres. São eles que mais sofrem com a emergência do clima. Isso é verdade, inclusive, nas grandes cidades. Basta pensar no entregador de aplicativo no Rio de Janeiro passando mal de calor, ou no servente de obra que precisa enfrentar verões cada vez piores, ano após ano.
No Brasil, a emergência climática é também um problema de desigualdade. O mesmo evento extremo atravessa dois bairros e destrói só um. E isso só torna mais urgente que o Congresso atue para conter o seu avanço. Ao mesmo tempo, poucos países chegam a essa encruzilhada com as cartas que o Brasil tem na mão. Temos duas tarefas bem diferentes pela frente. Uma é parar de derrubar floresta e começar a replantá-la. A outra é transformar a nossa energia limpa em indústria, emprego e soberania. São agendas distintas, com adversários igualmente diferentes. Vou tratar de cada uma separadamente.
1. A floresta em pé é a nossa maior política climática
O Brasil sempre foi um caso raro no mundo. Na maioria dos países, a principal fonte de emissão é queimar combustível fóssil: seja por causa dos carros, termelétricas ou do gás que aquece as casas na Europa. Aqui, por muito tempo, o maior responsável pelas emissões de gases de efeito estufa era o desmatamento. Derrubar árvore, pura e simplesmente – como o Ricardo Salles, ministro do Bolsonaro, tentou incentivar ao falar em “passar a boiada”.
Até 2023, mudança de uso da terra – desmatamento, essencialmente – respondia por quase metade de tudo o que o país emitia. Mas isso mudou. E mudou rápido.
Em 2024, as emissões líquidas por mudança de uso da terra caíram 64%, a maior queda já registrada. Pela primeira vez, o desmatamento deixou de ser a principal fonte de emissões líquidas do Brasil. Em 2025, o desmate na Amazônia ficou em 5.796 km², o menor índice em onze anos, com queda de 11% também no Cerrado.
Isso não aconteceu por acaso, mas em virtude do excelente trabalho desenvolvido pelo Ministério do Meio Ambiente comandado por Marina Silva. Os servidores também merecem méritos pelo heroísmo demonstrado nos campos – imagens de fiscais do Ibama ateando fogo contra maquinário de madeireiros e garimpeiros volta e meia estampam o jornal. Mudamos a realidade por meio de políticas públicas: recompondo o orçamento recomposto para os órgãos de fiscalização ambiental, retomando o ICMBio, protegendo terras indígenas e cuidando do Ibama. Mas, infelizmente, se o Governo Bolsonaro provou alguma coisa, é que políticas públicas podem ser rapidamente desmontadas. Aprendemos essa lição da pior maneira.
É por isso que apoiar o Ministério do Meio Ambiente, os órgãos de fiscalização e os seus servidores é a diferença entre manter e perder a maior redução de emissões que este país já fez.
A demarcação é política climática
A defesa dos povos originários é causa à qual a minha avó, Eunice Paiva, dedicou uma vida de luta. E os satélites provam o que ela já sabia e defendia décadas atrás: terra indígena demarcada é terra que fica de pé. A demarcação, além de fundamental em nome dos povos originários, é uma estratégia de contenção do desmatamento – das mais baratas e das mais eficazes que existem.
Essas comunidades seguem sob ataque de garimpeiros ilegais e grileiros que têm o aval dos bolsonaristas em Brasília. Comigo, essa gente não terá trégua.
Parar de derrubar é metade do trabalho. A outra metade é replantar.
O Brasil tem cerca de 120 milhões de hectares de áreas degradadas – terra já aberta, improdutiva, que não exige derrubar mais nada para voltar a produzir. Recuperar essa área é, ao mesmo tempo, captura de carbono em escala, geração de renda no interior e a base de um ativo econômico de verdade.
Restauração é a única tecnologia de remoção de carbono que já existe e funciona em larga escala, tendo o potencial de empregar brasileiros. Não depende de qualquer invenção futura. Depende de crédito, assistência técnica e regra clara.
E é exatamente aí que entra o mercado de carbono, setor que trabalhei para regular no período em que trabalhei no governo Lula.
Um mundo obrigado a zerar emissões vai ter que pagar a quem remove carbono da atmosfera. E nenhum país tem para oferecer o que nós temos: floresta em pé, floresta a recuperar e capacidade de comprovar as duas coisas por satélite. Feito direito, isso transforma cada hectare restaurado em renda para quem restaurou. E transforma a floresta – que a nossa economia sempre tratou como estorvo a ser removido – em algo que vale muito mais viva do que derrubada. É a inversão de incentivo mais importante que este país pode fazer.
O problema é que, se feito errado, isso vira crédito de fachada. Há projetos que nunca plantaram uma árvore vendendo a ilusão que estão capturando carbono da atmosfera. Riscos como grilagem com selo verde, ou comunidades tradicionais assinando contrato que não entendem, já existem. Por isso, o maior desafio é regular o setor de crédito de carbono para dotá-lo de integridade. Rastreabilidade, verificação independente e repartição obrigatória dos benefícios com quem vive na floresta. O Brasil não precisa ser o maior vendedor de crédito de carbono do mundo. Precisa ser aquele em que o comprador confia, porque é por isso que se paga mais caro.
Temos totais condições de oferecermos esse serviço para o mundo, com recompensa financeira pelo trabalho de reflorestamento.
2. Energia limpa só vale se virar indústria e emprego
A posição inicial da nossa matriz energética é privilegiada. Cerca de 88% da eletricidade brasileira já vem de fontes renováveis – proporção que quase nenhuma grande economia do planeta alcança e que diferencia o nosso país de todos os demais. Temos sol, vento, água, biomassa, a maior floresta tropical do mundo e a maior biodiversidade do planeta. Sediamos a COP30 em Belém, da qual participei em nome do Governo Lula. Levamos a negociação climática global para dentro da Amazônia, com os povos da floresta na sala.
Mas energia limpa, sozinha, não transforma a realidade do Brasil. O desafio é fazer com que ela signifique mais fábricas, empregos, tecnologia e melhores salários.
O que já construímos
Como Diretor de Descarbonização no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), trabalhei para costurar política industrial, segurança energética, inovação e emprego numa agenda só para o Brasil. Saíram dali as leis que hoje formam a base da transição brasileira.
– O mercado regulado de carbono. A Lei 15.042/2024 estabeleceu as bases do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. Mas essa lei ainda carece de regulamentação, detalhamento e da criação de uma autoridade pública para administrar esse mercado – provavelmente com uma nova etapa legislativa, da qual quero participar como deputado federal. Isso é fundamental para cumprir o objetivo de lastrear os créditos de carbono vendidos pelo Brasil com integridade.
– A Lei do Hidrogênio e a política de fertilizantes, que atacam a dependência brasileira de insumos importados.
– O Combustível do Futuro, que inclui o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis para aviação.
– A Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI), cuja elaboração eu coordenei, articulada com a Nova Indústria Brasil.
Tenho orgulho desse trabalho. E quero levá-lo adiante, porque a parte mais difícil, que é fazer tudo isso sair do papel, ainda está toda pela frente.
Energia renovável e atração de indústrias.
Isso não é só pauta ambiental. É segurança econômica. Conflitos e instabilidades em regiões estratégicas, como o entorno do Estreito de Ormuz, mostram o risco de depender de cadeias internacionais de energia e de insumos essenciais. Cada tonelada de fertilizante que produzimos aqui e cada litro de combustível que substituímos por fonte nacional é uma vulnerabilidade a menos. Quem tem energia própria e limpa negocia de outro lugar no mundo.
Ao mesmo tempo, o Brasil joga energia limpa fora. É o chamado curtailment: nome dado ao fenômeno que acontece quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico determina que usinas eólicas e solares reduzam ou interrompam a geração de energia, porque a rede não dá conta de escoar. É uma energia que já foi gerada, foi paga e simplesmente não chega a lugar nenhum.
Existe uma saída inteligente para isso. O setor industrial chama de powershoring: em vez de transportar a energia até a indústria, você instala a indústria onde a energia está. As grandes empresas do mundo hoje procuram exatamente isso – energia abundante, barata, limpa e longe de zona de conflito. Quatro coisas que o Brasil tem.
O Rio no centro dessa história.
O Rio de Janeiro ocupa posição estratégica nesse processo, especialmente pelo Porto do Açu, com potencial para se consolidar como hub de hidrogênio verde e amônia.
Embora várias aplicações do hidrogênio ainda estejamdistantes da adoção comercial em larga escala, o potencial futuro é real, sobretudo em setores de difícil descarbonização como o transporte marítimo e a aviação. E quem quiser estar nesse mercado precisa começar a se preparar agora.
Por isso o investimento não pode ser só em concreto e tubulação. Tem que ser em inteligência: pesquisa, desenvolvimento tecnológico e capacidade de planejamento. E aqui o Rio é imbatível, pois é cercado por verdadeiros centros de inteligência, como Impa, UFRJ, Uerj, Unirio, FGV-RJ, PUC-Rio e UFF. Por isso, o estado tem tudo para ser a casa da inovação dessa transição.
E emprego para quem?
Essa é a pergunta que decide se a transição vai ser justa ou vai ser mais uma conta na mão do trabalhador.
Hidrogênio verde, geração eólica, combustíveis sustentáveis: cada uma dessas cadeias exige gente qualificada. Técnico para instalar, operar e manter turbina eólica. Soldador especializado. Eletricista de alta tensão. São empregos de maior qualificação, maior produtividade e melhor salário do que os que estão desaparecendo.
Mas ninguém vira técnico em eólica por acaso. Se o Estado não formar essa gente, a vaga vai existir e o brasileiro vai ficar de fora dela, assistindo a turbina ser instalada por outro. E o trabalhador do setor que está encolhendo não pode ser simplesmente descartado no caminho. Vou trabalhar para que a transição para uma economia de baixo carbono aconteça sem deixar ninguém para trás. Muito pelo contrário: para que ela gere empregos de mais qualidade para os trabalhadores brasileiros.
Adaptação: proteger quem já está pagando a conta
Nada do que está acima impede o que já está acontecendo. A enchente já vem, o calor já mata. Enquanto reduzimos emissões, é preciso proteger quem está exposto agora.
Meus compromissos
Com a floresta
- 01
Desmatamento zero, com estrutura para sustentá-lo
Recomposição permanente de orçamento e de pessoal do MMA, do Ibama e do ICMBio, blindada contra corte político.
- 02
Demarcação como prioridade
Retomada e conclusão dos processos parados, com proteção efetiva contra garimpo ilegal e grilagem.
- 03
Programa nacional de restauração das áreas degradadas
com crédito, assistência técnica e prioridade para agricultura familiar, assentamentos e comunidades tradicionais.
- 04
Crédito de carbono florestal com integridade inegociável
Fazer do Brasil o padrão mundial de qualidade: rastreabilidade de cada crédito, verificação independente, punição a projeto fantasma e repartição obrigatória de benefícios com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Quem cuida da floresta tem que receber pelo que ela guarda.
Com a indústria e o trabalho
- 05
Lei de Transição Justa
com fundo específico, garantia de renda e requalificação para trabalhadores de setores em transição, negociada com as centrais sindicais.
- 06
Regulamentar o mercado de carbono e criar uma autoridade pública à altura
Concluir a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões com órgão gestor forte, regras de integridade e rastreabilidade dos créditos — para o Brasil ser referência em qualidade, não em volume.
- 07
Powershoring e reindustrialização verde
Marco regulatório que atraia a indústria para onde a energia limpa está, com conteúdo local, aço verde e exigência de fabricação nacional nas compras públicas.
- 08
Resolver o desperdício de energia renovável
com investimento em transmissão, armazenamento e regras que permitam aproveitar a geração hoje descartada.
- 09
O Rio como polo da economia de baixo carbono
Apoio ao Porto do Açu como hub de hidrogênio verde e amônia e às cadeias de combustíveis sustentáveis, com financiamento público e regulação previsível.
- 10
Ciência e inovação como infraestrutura da transição
Recomposição orçamentária e apoio às universidades e centros de pesquisa do Rio, com P&D aplicado à descarbonização.
- 11
Qualificação profissional para os empregos que estão chegando
Plano nacional de formação técnica para eólica, solar, hidrogênio e combustíveis sustentáveis, com prioridade para trabalhadores de setores em transição e para a juventude periférica, garantindo renda durante a requalificação.
- 12
Fazer andar o PL da Emergência Climática
do deputado Alessandro Molon, que decreta estado de emergência climática, fixa a meta de neutralidade de carbono até 2050 e proíbe o corte de verbas ambientais.
Adaptação
- 13
Plano Nacional de Adaptação Urbana
saneamento, drenagem, arborização, habitação segura e defesa civil equipada nas periferias e nas cidades mais vulneráveis.
- 14
Proteção de quem trabalha no calor
regulamentação da proteção ao calor extremo para entregadores de aplicativo, trabalhadores da construção e demais atividades a céu aberto.
- 15
Energia como direito
ampliação da tarifa social, energia solar em habitação popular e em escolas e postos de saúde públicos.
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